Como aprender a me valorizar e ter orgulho de quem eu sou, lições de Rute sobre identidade feminina

Você consegue dizer seu próprio nome com orgulho?

Não apenas pronunciá-lo. Mas carregá-lo. Apresentá-lo. Dizer “eu sou fulana” sem imediatamente adicionar uma qualificação, um papel, uma função que justifique sua existência naquele espaço. Sem esperar que o nome do marido, do cargo, da família ou da instituição empreste peso ao seu.

Apenas: eu sou eu. E isso é suficiente.

Para muitas mulheres, essa frase simples carrega um peso enorme. Porque em algum momento da vida, aprendemos que nosso nome precisava de contexto para ter valor. Que quem somos só fazia sentido em relação a alguém ou algo. Que a identidade própria, sem adornos e sem apoios externos, era um terreno inseguro onde não se podia ficar por muito tempo.

Rute sabia o que era ter o nome esvaziado de contexto. Ela perdeu o marido, o país, a cultura e a comunidade que davam forma à sua identidade. E do outro lado dessa perda, ela fez algo extraordinário: aprendeu a dizer seu nome com uma clareza que poucos personagens bíblicos demonstram.

Rute no momento de maior vulnerabilidade

Já falamos sobre Rute nessa série, mas sob um ângulo diferente. Ali, exploramos a sua escolha: a decisão de ficar com Noemi quando o caminho mais fácil era voltar para Moabe.

Aqui, queremos olhar para o que aconteceu depois dessa escolha. Para o momento em que Rute chegou a Belém como estrangeira, sem nada que a definisse externamente, e teve que encontrar em si mesma o que o ambiente ao redor não podia mais lhe dar.

Rute 1:19-21 registra a chegada delas a Belém. A cidade toda se agitou com a presença delas, e as mulheres perguntaram: “Será que é Noemi?” E Noemi respondeu: “Não me chamem Noemi, melhor que me chamem de Mara, pois o Todo-Poderoso tornou minha vida muito amargurada.”

Noemi, na dor, pediu para mudar o próprio nome. Ela não conseguia mais carregar quem havia sido.

Rute, por sua vez, não pede esse tipo de apagamento. Ela chega a Belém sendo quem é, moabita, viúva, estrangeira, sem disfarce e sem desculpa. E começa a construir sua vida a partir exatamente de onde está.

O que significa dizer seu nome com orgulho

Dizer seu nome com orgulho não é arrogância. Não é ausência de humildade. É o reconhecimento de que você tem uma identidade real, formada por escolhas, valores, experiências e uma maneira particular de estar no mundo, que existe independente da aprovação externa.

É o oposto de se apresentar pedindo desculpas. De diminuir o que você é antes que alguém possa fazê-lo primeiro. De entrar em um espaço já explicando por que você está lá, como se precisasse de justificativa para existir.

Rute entra no campo de Boaz e, quando interrogada sobre quem é, não se esconde nem se encolhe. Em Rute 2:6-7, o servo de Boaz a descreve: “É uma moabita que voltou de Moabe com Noemi. Ela me pediu que a deixasse recolher e juntar espigas entre os feixes, após os ceifeiros. Ela chegou cedo e está em pé até agora. Só sentou-se um pouco no abrigo.”

Ela havia pedido, se identificado e se colocado disponível para o trabalho sem fingir ser o que não era nem esconder o que era.

Essa é uma forma de dizer o próprio nome com orgulho: aparecer como você é, pedir o que precisa, fazer o que foi fazer, sem construir uma versão editada de si mesma para ser mais palatável ao ambiente.

Os nomes que as outras pessoas nos dão

Uma das razões pelas quais é tão difícil dizer o próprio nome com orgulho é que, ao longo dos anos, acumulamos os nomes que outras pessoas nos deram. E esses nomes costumam ser mais fáceis de internalizar do que o nosso próprio.

A “exagerada”. A “difícil”. A “sensível demais”. A “que não sabe o que quer”. A “que deu errado”. A “que deveria ter ficado”. A “que não foi suficiente”.

Esses nomes são dados de formas diversas. Às vezes com palavras explícitas. Às vezes com silêncios que dizem mais do que as palavras. Às vezes com comparações que deixam claro onde você fica na hierarquia de valor daquele ambiente.

E uma vez internalizados, eles começam a soar mais familiares do que o seu próprio nome. Você começa a se apresentar a partir deles, mesmo sem perceber. A antecipação do julgamento alheio molda a forma como você entra em um espaço, como você fala, como você ocupa, ou deixa de ocupar, o lugar que é seu.

Rute carregava o nome “moabita” como uma marca. Era estrangeira num povo que tinha razões históricas para desconfiar dos moabitas. Mas ela não se apresentava se desculpando por isso. Ela simplesmente era quem era, e deixava que quem era falasse mais alto do que a procedência.

O momento em que Boaz a vê

Rute 2:8-12 é um dos momentos mais belos de todo o livro. Boaz vai ao campo, vê Rute catando espigas e vai falar com ela. Ele não apenas permite que ela continue. Ele a acolhe, oferece proteção, manda que seus servos deixem espigas extras para ela de propósito, e então diz algo que revela o que ele havia observado:

“Contaram-me tudo o que você tem feito por sua sogra, depois que você perdeu seu marido: como deixou seu pai, sua mãe e sua terra natal e veio para viver com um povo que você não conhecia bem.” (Rute 2:11)

A reputação de Rute havia chegado antes dela. Não a reputação de ser moabita. Não a reputação de ser viúva sem recursos. A reputação do seu caráter, das suas escolhas, da qualidade de quem ela era.

Isso acontece quando uma mulher para de tentar controlar como é vista e começa a simplesmente ser quem é com consistência. A narrativa que os outros constroem sobre ela começa a ser moldada pelo que ela realmente é, não pelo que ela teme que pensem.

Quando você diz seu nome com orgulho, não no sentido performático mas no sentido de ser completamente você mesma onde quer que esteja, você permite que as pessoas certas te vejam do jeito certo.

Identidade que não depende de aprovação

Um dos maiores presentes que a história de Rute oferece é a imagem de uma mulher cuja identidade não estava ancorada na aprovação do ambiente ao redor.

Ela era estrangeira em Belém. Havia chegado sem recursos, sem rede de apoio, sem nada que o sistema social daquela cultura reconhecesse como marcador de valor. E ainda assim ela não passou por Belém desculpando-se por existir.

Ela catou espigas com dignidade. Ela pediu permissão com clareza. Ela apresentou a sua situação sem dramatizar nem minimizar. E quando Boaz lhe ofereceu mais do que ela havia pedido, ela respondeu com gratidão genuína mas sem surpresa excessiva, como alguém que estava aberta para receber mas não estava mendingando.

Essa é a postura de uma mulher que internalizou que tem valor, mesmo que o ambiente ao redor ainda não tenha confirmado isso formalmente.

Identidade real não precisa de confirmação externa para existir. Ela precisa de confirmação interna. E essa confirmação começa quando você decide, em algum momento, que vai parar de esperar que o mundo te diga quem você é e vai começar a viver a partir de quem você já sabe que é.

O que Rute ensina sobre autoestima feminina

Autoestima não é sentir-se bem o tempo todo. Não é ausência de insegurança ou de dúvida. É algo mais sólido e mais durável do que isso.

É a capacidade de continuar sendo você mesma mesmo quando o ambiente não confirma quem você é. De catar espigas embaixo do sol quando é isso que precisa ser feito, sem perder a dignidade no processo. De pedir o que precisa sem se ajoelhar para isso. De receber o que é oferecido sem minimizá-lo por reflexo.

Rute nos ensina que autoestima não é conquistada quando as circunstâncias melhoram. É construída no meio das circunstâncias difíceis, quando você decide continuar sendo quem é mesmo que ninguém esteja confirmando isso ainda.

Ela não esperou ter um lugar garantido em Belém para começar a agir como alguém que merecia ter um lugar. Ela agiu como quem tinha valor, e o lugar veio.

Perguntas que Rute nos faz

Qual é o nome que você usa para se apresentar quando não sabe se vai ser bem recebida? Você ainda é você mesma, ou apresenta uma versão mais segura, mais palatável, mais adaptada ao que imagina que o ambiente quer ouvir?

Quais são os nomes que outras pessoas te deram e que você ainda carrega como se fossem seus? Escreva-os. E então pergunte: isso é realmente quem eu sou, ou é quem alguém precisava que eu fosse para que a vida deles fosse mais fácil?

Em que áreas da sua vida você ainda está pedindo desculpas por existir? Onde você entra se justificando antes de ser questionada? Onde você diminui o que sente, o que pensa ou o que quer antes de apresentá-lo?

Se você soubesse com certeza que tem valor independente de qualquer confirmação externa, o que você faria diferente amanhã?

O nome que permanece

No final do livro de Rute, algo acontece que poucas pessoas percebem como o encerramento perfeito de uma história sobre identidade.

Rute 4:13-17 registra o casamento de Rute com Boaz, o nascimento do filho deles, Obede, e as mulheres da cidade dizendo a Noemi: “Louvado seja o Senhor, que hoje não a deixou sem um resgatador. Que seu nome seja celebrado em Israel! O menino lhe dará nova vida e a sustentará na velhice, pois é filho da sua nora, que a ama e que lhe é melhor do que sete filhos.”

E então o texto faz algo incomum. Registra a genealogia: Obede foi pai de Jessé, que foi pai de Davi.

Rute, a moabita, a estrangeira, a viúva sem recursos que chegou a Belém com apenas o seu caráter e a sua lealdade, está na linhagem que leva ao rei Davi. E, mais adiante, na linhagem que leva a Jesus.

Seu nome foi preservado. Não porque ela havia feito tudo certo. Não porque havia nascido no lugar certo ou com as credenciais certas. Mas porque ela havia sido, consistentemente e com dignidade, quem ela era.

Esse é o poder de dizer o próprio nome com orgulho. Não como gesto performático de autoconfiança. Mas como ato de fidelidade a quem você foi criada para ser.

O seu nome também merece ser dito assim.

Essa é a última história da nossa série sobre Identidade e Autoconhecimento. Qual das dez mulheres que percorremos juntas nessa série falou mais diretamente com você? Conta nos comentários.

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