Você já sentiu que era pequena demais para fazer diferença?
Não no sentido de baixa autoestima passageira. No sentido profundo de olhar para o que sente que foi chamada a fazer e então olhar para si mesma, para os recursos que tem, para o lugar onde está, para o poder que não tem, e concluir que a equação simplesmente não fecha.
Que outras pessoas, com mais influência, mais recursos, mais visibilidade, mais preparo, seriam mais adequadas para aquilo. Que você, especificamente você, é pequena demais para o que está sendo pedido.
Sifrá e Puá conheciam esse lugar.
Elas eram parteiras. Em uma hierarquia social que ia do faraó, o homem mais poderoso da terra conhecida, até os escravos hebreus no nível mais baixo, elas estavam próximas da base. Sem posição política. Sem exércitos. Sem influência. Sem nome nas crônicas do poder.
Apenas duas mulheres que sabiam trazer bebês ao mundo.
E elas desobedeceram ao faraó.
E salvaram uma geração inteira.
O contexto que torna a história impossível
Para entender o que Sifrá e Puá fizeram, é preciso entender o tamanho do que estavam enfrentando.
Êxodo 1:8 registra que havia subido ao trono do Egito um novo rei que nada sabia sobre José. E esse rei estava com medo. Êxodo 1:9-10 registra suas palavras: “Vejam! O povo israelita agora é mais numeroso e mais forte que nós. Venham! Precisamos tratá-los com astúcia, para que não se multipliquem.”
O faraó era a autoridade máxima do Egito. Sua palavra era lei absoluta. Desobedecer ao faraó não era apenas um ato de rebeldia política. Era potencialmente um ato suicida.
E ainda assim, Êxodo 1:15-16 registra que o rei do Egito ordenou às parteiras Sifrá e Puá uma instrução monstruosa: quando ajudassem as hebreias a dar à luz, deveriam matar os meninos e deixar viver apenas as meninas.
Infanticídio sistemático. Ordenado pelo poder mais absoluto que elas conheciam.
E o versículo 17 diz simplesmente: “Contudo, as parteiras temeram a Deus e não obedeceram às ordens do rei do Egito; deixaram viver os meninos.”
Duas palavras que mudam tudo: deixaram viver.
O medo que elas tinham e foram mesmo assim
É tentador ler a história de Sifrá e Puá como a história de duas mulheres excepcionalmente corajosas que não sentiam medo. Mas o texto não diz isso. O texto diz que elas temeram a Deus.
Esse detalhe é importante. Elas tinham medo. A questão não era ausência de medo, mas qual medo era maior: o medo do faraó ou o temor de Deus.
E elas escolheram o temor de Deus.
Isso não é pouca coisa. O faraó era visível, concreto, poderoso, e havia dado uma ordem clara com consequências presumivelmente letais para quem desobedecesse. Deus era invisível, e o povo hebreu estava em escravidão, o que, do ponto de vista das evidências imediatas, não parecia um argumento forte a favor de confiar nele.
E ainda assim elas desobedeceram ao faraó.
Isso nos ensina algo fundamental sobre coragem: ela não é a ausência de medo. É a presença de algo que importa mais do que o medo. Sifrá e Puá não eram mulheres sem medo. Eram mulheres que haviam encontrado algo maior do que o medo delas.
Você já encontrou esse algo maior?
A mentira que elas contaram e o que isso significa
Quando o faraó as convocou para explicar por que os meninos estavam sobrevivendo, Sifrá e Puá responderam em Êxodo 1:19: “As mulheres hebreias não são como as egípcias. São cheias de vigor e dão à luz antes de chegarem as parteiras.”
Essa resposta tem gerado discussão teológica há séculos. Elas mentiram para o faraó?
Provavelmente sim, pelo menos parcialmente. E o texto não as condena por isso. Ao contrário, Êxodo 1:20-21 registra: “Deus foi bondoso com as parteiras, e o povo se multiplicava, tornando-se muito numeroso. Visto que as parteiras temeram a Deus, ele lhes concedeu que tivessem suas próprias famílias.”
Deus foi bondoso com elas.
Não estou aqui para fazer uma tese sobre mentira e ética bíblica. O que me interessa nesse detalhe é outro: Sifrá e Puá usaram o que tinham, a inteligência, a criatividade, o conhecimento do ambiente, para proteger o que havia sido colocado nas suas mãos.
Elas não tinham exército. Não tinham poder político. Não tinham influência. Tinham astúcia e a coragem de usá-la. E às vezes é exatamente isso que o chamado pede: não os recursos que você não tem, mas a criatividade para usar bem os que você tem.
Dois nomes que o faraó não tem
Aqui está um detalhe que eu não consigo passar sem mencionar.
O faraó que ordenou o infanticídio não é nomeado no texto. Êxodo 1 o chama apenas de “o rei do Egito” ou “o faraó.” O homem mais poderoso do mundo conhecido, cujo nome provavelmente estava gravado em monumentos por todo o Egito, não tem nome no texto bíblico.
Mas Sifrá e Puá têm nome. Duas parteiras escravas, sem poder, sem posição, sem influência, têm seus nomes registrados para sempre na Escritura. E o faraó que tentou destruir uma geração é apenas “o faraó.”
A história registra quem merece ser lembrado. E o que merece ser lembrado não é o poder que oprime. É a coragem que protege.
Isso inverte completamente a lógica do mundo sobre quem é grande e quem é pequeno.
O que elas salvaram sem saber
O texto não diz explicitamente, mas a sequência narrativa de Êxodo sugere algo poderoso.
Êxodo 1 termina com o faraó ordenando que todos os meninos hebreus fossem lançados ao Nilo. Êxodo 2 começa com o nascimento de Moisés, com a mãe que o esconde por três meses e depois o coloca em uma cesta no Nilo onde é encontrado pela filha do faraó.
Moisés nasceu depois do decreto do faraó. Mas os meninos que Sifrá e Puá salvaram antes do decreto foram os que formaram a geração que Moisés lideraria para fora do Egito.
Elas não sabiam que estavam salvando o povo que seria libertado. Não sabiam que suas ações fariam parte de uma história que moldaria a humanidade por milênios. Elas sabiam apenas que havia um bebê diante delas e que matá-lo era errado.
E fizeram o que era certo com o que tinham.
Você não precisa ver o destino final do que foi colocado nas suas mãos. Você precisa apenas ser fiel ao que está diante de você agora.
Por que você não é pequena demais
A história de Sifrá e Puá destrói um por um os argumentos que usamos para nos convencer de que somos pequenas demais para o nosso chamado.
“Não tenho posição suficiente.” Sifrá e Puá eram parteiras escravas. Não havia posição mais baixa na hierarquia egípcia. E suas ações mudaram o curso da história de um povo inteiro.
“Não tenho recursos suficientes.” Elas não tinham exército, não tinham dinheiro, não tinham influência política. Tinham apenas as mãos que sabiam trazer bebês ao mundo. E usaram exatamente isso.
“Sou apenas uma pessoa.” Eram duas. E dois nomes são suficientes para mudar uma geração quando agem com coragem no momento certo.
“Tenho medo.” Elas também tinham. O texto deixa claro que elas temeram a Deus, o que implica que o medo do faraó também estava presente. Mas elas foram mesmo assim.
“Ninguém vai saber o que faço.” O faraó não soube. A história secular não registrou. Mas Deus soube. E os nomes delas estão na Escritura há mais de três mil anos enquanto o nome do faraó que tentou destruir uma geração foi esquecido.
O bebê diante de você
Sifrá e Puá não estavam tentando mudar o mundo. Estavam fazendo o trabalho que sabiam fazer, trazendo bebês ao mundo, um de cada vez, em condições de escravidão e opressão.
E o mundo mudou.
Existe algo na sua vida que é o equivalente do bebê diante de Sifrá e Puá. Algo que foi colocado nas suas mãos e que você sabe que precisa proteger, nutrir, cuidar, ainda que ninguém esteja vendo, ainda que as condições sejam terríveis, ainda que o faraó da sua vida tenha dado ordens contrárias.
Pode ser um filho que você está criando em condições difíceis. Pode ser um chamado que você está nutrindo em silêncio. Pode ser uma pessoa na sua vida que precisa de você de uma forma que ninguém mais pode suprir. Pode ser uma ideia, um projeto, uma comunidade.
Qual é o bebê diante de você?
Porque a pergunta não é se você é grande o suficiente para mudar o mundo. A pergunta é se você vai ser fiel ao que foi colocado nas suas mãos hoje.
As perguntas que Sifrá e Puá fariam para você
Se essas duas mulheres pudessem sentar ao seu lado hoje, com a serenidade de quem descobriu que o temor de Deus é sempre maior do que o medo do faraó, elas provavelmente fariam perguntas simples e diretas.
Qual é o faraó da sua vida? Não necessariamente uma pessoa. Pode ser o julgamento das pessoas ao redor, a falta de recursos, o medo do fracasso, a voz que diz que você é pequena demais. O que está ordenando que você mate o que foi colocado nas suas mãos?
O que você está deixando viver quando poderia ter desistido? Sifrá e Puá deixaram viver os meninos. O que você está escolhendo proteger e nutrir mesmo quando seria mais fácil abandonar?
Qual é o recurso que você tem que parece pequeno mas é exatamente o suficiente? Elas tinham apenas as mãos de parteiras. Você tem o que tem. E o que você tem pode ser exatamente o que é necessário.
O que você faria se soubesse que Deus está prestando atenção? Porque o texto diz que Deus foi bondoso com as parteiras. Ele viu. Ele sempre vê.
Um convite para fechar
Êxodo 1:21 registra a recompensa de Sifrá e Puá: “Visto que as parteiras temeram a Deus, ele lhes concedeu que tivessem suas próprias famílias.”
Elas que haviam protegido as famílias de tantas outras mulheres receberam as suas próprias. O que você protege, Deus protege em você.
Você não é pequena demais para o que foi chamada a fazer. Sifrá e Puá eram parteiras escravas sem nome na hierarquia do poder egípcio. E seus nomes estão registrados para sempre porque fizeram o que era certo com o que tinham, onde estavam, no momento em que foi pedido.
Você tem um nome. Você tem um chamado. Você tem o que é necessário para o próximo passo.
O bebê está diante de você. O que você vai fazer?
Qual é o chamado que você tem adiado porque se sente pequena demais? Me conta nos comentários. Quero celebrar com você o que Deus está colocando nas suas mãos.




